quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Os móveis tem ouvidos, não boca


"Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis. A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos". Tg 5.16






Me incomoda um pouco a postura do crente faltoso, sim, aquele que comete um pecado repreensível e no instante da sua confissão diligência por encontrar alguém tão faltoso quanto ele. Acredito que isto é objeto de inquietude de muitos líderes, pois sendo deflagrada a queda de um fiel, justamente os pastores, aqueles que naturalmente devem ser os primeiros a receber a informação, são justamente os últimos a serem noticiados. No caso de adultério, só descobrem o problema quando o casal já está em vias de se separar; em caso de fornicação (o sexo entre não casados) o líder só descobrirá quando a barriga da noiva aparecer ou os genitores, geralmente os da moça, estiverem tão constrangidos que optaram por se afastar do rebanho, levando o "pároco" a visitá-los em casa. Ao perguntar pela jovem certamente o anjo da igreja ouvirá a fatídica resposta: "O senhor ainda não sabe?"

É definitivo: pastores sempre são os últimos a saber. Quanto aqueles que negligenciam tão honroso cargo eclesiástico, Deus os estará julgando por ocasião da dupla face do pecado (a face do pecado cometido e a face do pecado escondido), certamente os casos deste século não seriam os primeiros, Josué teve que percorrer tenda por tenda até chegar no domicílio de Acã; o profeta Natã teve que contar uma comovente história até repreender o rei Davi: "Tu és este homem" (2 Sm 12.7). Imagine quão constrangedora a situação do pobre monarca, imaginou que seu ato estava amparado sob o manto da dissimulação, que tudo estava sob controle agora que ele já estava casado com a jovem e formosa viúva, Bate-Seba, tudo estava resolvido, pobre Davi.


Acredito que aquele malfadado ano foi um dos mais difíceis da vida de Davi, pior do que os tempos em que ele fugia do desvairado Saul, pior do que o dia em que este duelou com Golias, quando Davi virou motivo de chacota do gigante filisteu, pior do que ter que fugir de seu próprio filho, Absalão, pior do que ter de lutar contra milhares de inimigos. É consenso entre os teólogos que o diálogo entre Davi e Natã aconteceu aproximadamente um ano depois da queda do rei, e acredite, não obstante passados muitos dias seu pecado continuava fresco, verde, pertubando seu sono, eu posso garantir que o salmo três foi escrito num momento distinto deste no qual a consciência real estava atormentada pela culpa. Imagine quão difíeis foram as horas, os dias, os meses do filho de Jessé, até que Natã chegasse, apresentando-lhe um "causo", uma parábola, no qual o rei era o personagem principal.


"Tu és este homem", Não soou como uma afronta um desrespeito, pelo contrário, esta foi chave que abriu as cancelas do perdão divino. Só depois de ouvir esta frase, Davi pode chorar, não pela morte do seu filho mas pela sua própria morte espiritual; só depois desta frase o maior monarca de todos os tempos pode reviver seu ministério poético, depois desta frase a vida de Davi teve um recomeço, um reinicio, uma metamorfose, compôr o salmo cincoenta e um confirmou o reecontro com o Senhor, no qual o rei reassume o coração de Deus. No ápice da sua declaração de amor ao Senhor Davi descortina o caráter de Deus: "Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus." (Sl 51.17)


Davi está dizendo: eu já jejuei, não tenho faltado nenhuma das festas solenes de Israel, tenho ido ao santuário reiteradas vezes, os profetas me dirigem sempre uma palavra reconfortante, mas continua faltando alguma coisa, sinto que ainda há um vazio, o pecado ainda continua ali, não adiantou passar fome, ou orar, tanger a harpa, ou tentar salmodiar, não há inspiração, a mácula está no mesmo lugar, inerte. Agora que o profeta Natã chegou e disse a frase definitiva, descubro o que verdadeiramente agrada ao Senhor, um coração quebrantado e contrito, isto move o sentimentos de Deus, simplesmente isto. O choro amargo, o coração quebrantado, entristecido pela queda, isto, tão somente isto agrada honestamente ao Senhor.

O pecado consumado está distante muitos quilômetros do pecado confessado, eles não são a mesma coisa, pelo menos aos olhos de quem cometeu a falta. Primeiro, ele é consumado, consumar segundo dicionário da língua portuguesa é o equivalente à completar, acabar, concluir, realizar, tornar-se exímio. O que o dicionário está afirmando é assustador, pois antes de consumar o ato, você projeta, deseja, arquiteta, desenha, formata, acerta, e só então consuma. É assim no caso de adultério, é assim no consumo de entorpecentes, é assim no caso do roubo, é assim no caso da mentira, é assim no caso da cobiça, é assim no caso da murmuração ou da fofoca.

Um dia, um jovem me interpelou no corredor da congregação que lidero, justificando os motivos pelos quais não se sentiu apto a participar da Santa Ceia do Senhor. Estive ouvindo aquele moço por dez ou quinze minutos, e concluí que o pobre estava confuso, dizendo que a tentação o impedia de participar deste momento ímpar de comunhão com Cristo e com sua igreja. Perguntei que pecado enfim ele havia cometido, ao que ele respondeu: nenhum pastor, tenho me mantido fiel e íntegro na presença do Senhor, mas sou tentado todos os dias, a todo o instante. Pus fim a conversa falando que também sou tentado diuturnamente, rememorizei que Jesus também foi tentado, sem pecado é claro (Hb 4.15).

Existem dois elementos capazes de levar o povo ao reconhecimento do próprio pecado: primeiro, a pregação dirigida pelo Espírito Santo sobre o perdão Divino; segundo, o tradicional culto de Santa Ceia, com ênfase no versículo do auto-exame paulino, "examine-se, pois, o homem a si mesmo..."(1 Co 11.28a) . Ninguém melhor do que você é capaz de ver sua própria miséria e expurgá-la do seu coração para sempre. Confesse ao Senhor honestamente, comprometa-se a deixar de lado a velha vida, pessa misericórdia a Deus, permita que Ele trabalhe seu coração. Encorajado por esta primeira atitude, certamente você sentirá intrepidez para procurar seu líder espiritual e confessar-lhe o mal cometido, e o mesmo Deus sensibilizará seu pastor ou encarregado, a entender você, e mesmo que tudo isto resulte num afastamento momentâneo das atividades, acredite, isto também será o melhor para sua vida e fé.


Tenho certeza que na reunião da escola dos profetas (aquela mesma que Samuel criou), o abnegado profeta palaciano Natã não descortinou a queda davídica, não havia motivos para isto, o caráter de Natã, sua chamada o impediam de falar aquilo a quem quer que seja, somente ele, o monarca, o Senhor Jeová e os móveis daquele comodo presenciaram a conversa de ambos.


Não será o Senhor em seu caráter profundamente misericordioso que sairá por aí contando a todos o seu pecado, muito menos o pecador por uma questão de mero constrangimento e preservação da própria índole. Restam apenas dois elementos capazes de falar aos outros o pecado cometido e confesso, o pastor ou os móveis, quanto aos móveis tenho a impressão que tem ouvidos, mas graças a Deus não tem boca.


Procure seu pastor e averigue. Um grande abraço!

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